Depressão
O quadro visto sob um novo olhar
Nem só tristeza e desânimo caracterizam a doença. Esse distúrbio que afeta 36 milhões de brasileiros também se manifesta por dores difusas, cefaléia e alterações no apetite - e muita gente nem se dá conta. Especialistas apontam os caminhos para dar a volta por cima
De repente bate uma tristeza, um desânimo, um baixo-astral, para não falar na dificuldade de se concentrar no trabalho. Nesse meio tempo, as relações pessoais entram em descompasso e a vida parece perder a graça. Se você já se sentiu assim em algum momento, saiba que não é o único. Milhões de pessoas no planeta experimentam cotidianamente esse tipo de oscilação de humor. Ela surge por fatores externos, como um relacionamento que acaba, ou internos, que vêm com nossas lembranças e vivências.
Ainda há casos em que não existem motivos aparentes. Muitas vezes esses episódios desaparecem subitamente, assim como surgiram. Entretanto, se o estado depressivo se estender por mais de 15 dias e vier acompanhado de uma incapacidade de sentir prazer, seja lá no que for, o assunto torna-se bem mais sério. Principalmente se o comportamento for recorrente.
SINAIS DE UM COMPORTAMENTO DEPRESSIVO
Inquietação
Baixa de energia física
Sentimentos de culpa injustificáveis
Pensamentos pessimistas
Irritabilidade ou impaciência
Lombalgia
Desesperança
Dores de cabeça
Dores pelo corpo
Pena de si mesmo
Crises incessantes de choro sem motivo
Dificuldade de tomar decisões e de se concentrar
Achar que não vale a pena viver
Depressão - também conhecida como sinônimo de transtorno depressivo maior (TDM), depressão unipolar ou depressão maior - é uma doença e atinge 17 % da população mundial. No Brasil, estima-se que 36 milhões de pessoas sejam afetadas por ela. A coisa é tão grave que muitos especialistas a consideram o 'mal do século'. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) trata-se da segunda maior causa de perda de qualidade de vida e, no ano de 2020, será tão comum quanto ter dores nas costas.
O distúrbio prejudica pessoas de todas as idades, nacionalidades, credos e sexos. As mulheres, porém, por motivos ainda não totalmente esclarecidos, parecem ser as vítimas favoritas. Estudos internacionais apontam que 25% do sexo feminino de todos os continentes contra 15% do masculino poderão sofrer com o problema. "Além das bruscas mudanças hormonais, as quais afetam diretamente seu estado emocional, a mulher moderna vivencia pressões sociais cada vez maiores. Hoje, ela tem de dar conta de sua vida profissional, pessoal, familiar e social com perfeição. Esse fator, somado a outros, pesa muito", diz o neuropsiquiatra e psicoterapeuta Guido Boabaid May, autor do livro Ana Maria Está Feliz, no qual aborda a depressão e os caminhos para se livrar do problema e chegar à felicidade.
Falta identificação
Sintomas emocionais, como perda de interesse, desesperança, culpa e desejo suicida são facilmente associados à depressão. Mas nem só de tristeza infinita se alimenta a doença. Cerca de 85% dos deprimidos apresentam alterações no sono - insônia principalmente. Os outros 15% dormem demais. Quanto ao apetite, segundo o neuropsiquiatra Guido May, 85% dos pacientes se queixam de perda de peso, enquanto 15% engordam por conta da ansiedade que leva a comer em excesso. O distúrbio também mexe com a sexualidade: "O indivíduo está tão voltado para dentro de si que não se sente capaz de doar afeto. Por isso seu impulso sexual fica regredido, como se tivesse um ano de idade", diz a psicanalista e sexóloga Dulce Barros (SP). E mais: dores persistentes e indefinidas, cefaléias e distúrbios gastrintestinais também podem estar apontando o problema e muita gente nem se dá conta disso.
Preocupada com a questão, a Federação Mundial de Saúde Mental, em conjunto com os laboratórios Eli Lilly e Boehringer Ingelheim, realizou um estudo envolvendo 377 pessoas com o problema, 375 clínicos gerais e 381 psiquiatras em cinco países - Brasil, Canadá, México, Alemanha e França. O trabalho, divulgado recentemente durante o Encontro Mundial da Associação Americana de Psiquiatria, em Atlanta, nos Estados Unidos, mostrou que, antes do diagnóstico, 72% dos pacientes com depressão severa não conseguiam identificar os sintomas físicos como sinais típicos da doença, embora 79% tenha revelado que já chegou a procurar ajuda justamente por causa desses incômodos.
A mesma pesquisa apontou que indivíduos com transtorno depressivo esperam, em média, um ano para procurar um especialista e só conseguem obter um diagnóstico adequado após passarem por cinco consultas. O pior é que quanto mais uma pessoa deixa de ser tratada, mais corre o risco de a enfermidade tornar-se crônica. "Como em qualquer doença, o diagnóstico e o tratamento precoces podem favorecer a evolução do paciente, melhorar as chances de tratamento e chegar a uma recuperação completa, além de diminuir o tempo de sofrimento imposto ao doente e seus familiares", diz Mário Louzã Neto, psiquiatra e psicoterapeuta do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Usp).
TRATAMENTOS EFICAZES
Muitos quadros devem ser tratados com medicamentos específicos. Apesar dos efeitos colaterais que podem apresentar, os antidepressivos estão cada vez mais eficazes. Veja quais são:
Tricíclicos: estes são os mais antigos, usados desde a década de 50 até aproximadamente o final dos anos 80. Em geral, apresentam fortes efeitos colaterais, como perda da libido e aumento de peso, além de, às vezes, interagirem com outros medicamentos. Atualmente são receitados para os pacientes que não respondem bem às drogas mais modernas. Seus princípios ativos são imipramina, a clomipramina e a amitriptilina.
De ação específica: atuam na recomposição da serotonina no cérebro. A partir dos anos 80, passaram a ser receitados em larga escala aos pacientes deprimidos. Seu representante mais famoso é o Prozac. Apresentam efeitos colaterais, porém bem mais leves que os tricíclicos, e têm pouca interação medicamentosa. São representantes dessa classe a fluoxetina, a fluvoxamina, a paroxetina, a sertralina e o citalapram, sendo os dois últimos mais indicados no tratamento da depressão em pacientes diabéticos, devido ao baixo risco de interação medicamentosa.
Antidepressivos de dupla ação: agem sobre a serotonina e a noradrenalina, proporcionando melhora nos sintomas emocionais (humor, ansiedade, tristeza) e físicos (fadiga, dores no corpo, sono). "Podem ser tomados em dose única diária e têm poucos efeitos colaterais", avisa a médica Giuliana Cividanes. Os principais princípios ativos dessa categoria são a venlafaxina (que pode aumentar a pressão arterial, por isso não recomendado a pacientes hipertensos e com diabetes), a mirtazapina (que causa muito ganho de peso) e o mais recente, a duloxetina, lançada recentemente no Brasil, sob o nome de Cymbalta.
Riscos em dose dupla
Não bastasse todo o sofrimento psíquico e físico, o transtorno é capaz de trazer ainda outros prejuízos para a saúde. Um artigo publicado na revista científica Diabetes Care mostrou os resultados de estudos recentes realizados na Universidade de Alberta, no Canadá. Entre outras constatações, verificou-se que a depressão pode elevar em 25% o risco de a pessoa desenvolver um diabetes tipo 2. O estudo, feito com 30 mil pacientes, homens e mulheres, alarmou os médicos, pois a possibilidade de uma enfermidade servir de gatilho para outra só aumenta os riscos de complicações. Afinal, diabetes e depressão estão no topo da lista das doenças crônicas mais comuns na humanidade moderna. "Embora haja maior prevalência de deprimidos entre pacientes com diabetes do que na população em geral, ainda não é possível estabelecermos relações de causas e efeitos.
Acredita- se que aconteça porque os portadores de doenças crônicas têm uma visão pessimista de seu quadro geral e de suas limitações. Por isso acabam ficando nesse estado", avalia a psiquiatra Giuliana Cividanes (SP). O sistema neuroendócrino pode também estar envolvido nesse risco de mão dupla, mas ainda não há evidências da maneira como interage. Mas os especialistas já perceberam que o paciente deprimido e diabético necessita de cuidados especiais. A escolha do antidepressivo, por exemplo, deve ser feita com critério. "É preciso encontrar um medicamento que não aumente o apetite e leve a um ganho de peso. Além disso, não precisa apresentar perigo de interações medicamentosas, pois a pessoa já toma remédios contra o diabetes", informa a médica.
E tem mais. De cada 100 pessoas com problemas de dores lombares, entre 30 a 35 sofrem de depressão.
A estimativa é do especialista em Fisiologia do Exercício Marcus Vinícius Simões da Silva Gomes, diretor da N&T, do Rio de Janeiro. Professor de educação física, fisiologista e fisioterapeuta, ele desenvolve um estudo sobre a relação entre as duas doenças: "Estamos em busca do fator que une os problemas. Na relação depressão e dor lombar ainda não sabemos o que é causa e o que é conseqüência. Por isso, é necessário trabalhar em conjunto o corpo e a mente dos pacientes", conclui. O fim da tristeza
Os médicos afirmam: depressão tem cura. "Apenas 5% dos pacientes não respondem a nenhum tipo de tratamento", diz Guido May. Os outros 95% têm boas chances de se livrar para sempre do problema, mas precisam também fazer sua parte. Segundo estatísticas, dois terços dos que tomam antidepressivos desistem do tratamento por não sentirem melhorias nos sintomas de imediato. É que, em geral, os medicamentos fazem efeito a partir da segunda semana de uso. E até perceber os primeiros resultados, o doente pode levar seis semanas.
Cada medicamento possui uma resposta diferente para cada paciente. Por isso, nem sempre é possível acertar com o melhor antidepressivo na primeira tentativa. Hoje, existe uma série deles bastante eficazes, com pouquíssimos efeitos colaterais. Basta um pouco de paciência para que o especialista ajuste o remédio e a dosagem adequada, a fim de que os sintomas diminuam até sumirem de vez.
Por fim, não custa lembrar que é fundamental para o sucesso de qualquer tratamento que haja empatia e confiança entre profissional e paciente. Sem essa boa relação, não há química que resista